Editorial

Nazistas no Brasil

por Cesar Giobbi


Em livro, historiadores vasculham os arquivos do Deops/SP e encontram de tudo. Até isso


Capa do livro São Paulo Metrópole das Utopias, escrito com base do que foi encontrado nos arquivos do Deops/SP

A historiadora e Livre Docente da USP Maria Luiza Tucci Carneiro, organizadora da obra

A presença de nazistas em São Paulo sempre fez parte da mitologia e do ideário de minha geração de baby boomers, os nascidos até uma década depois de encerrada a Segunda Grande Guerra (1939-1945). Ouvíamos relatos sobre o aparecimento de submarinos alemães na nossa costa, como se estivéssemos vendo um filme de guerra americano. E, realmente, há testemunhos de que isso aconteceu em diversas oportunidades. Um amigo de meu pai, Edmundo Xavier, já falecido, contava sempre que tinha surpreendido um submarino alemão parado ao largo da Praia de Pernambuco, no Guarujá, no começo dos anos 40, antes de o Brasil entrar na guerra. E dava detalhes: oficiais e soldados alemães, fardados, trazidos por um bote, conversavam de pé na praia. Provavelmente trazendo um espião para se infiltrar, ou tentando contato com algum espião residente em São Paulo.

Em outubro de 2007, como para confirmar essas histórias, Roberto Muylaert lançou o romance Alarm!, sobre o desembarque de soldados de um submarino alemão na Praia Grande, ao sul de Santos. Um deles, brasileiro de nascimento, mas filho de alemães, lutando pela Alemanha na guerra, resolve ficar e é recebido em São Paulo por brasileiros e alemães ou ligados ao Reich, ou simpatizantes. Muylaert garante que tudo aconteceu. Também ele ouviu estes relatos da geração de seu pai.

Pois desde que os arquivos do Deops/SP ficaram disponíveis à pesquisa, a partir de 2005, muitos historiadores se debruçaram sobre o assunto, não exatamente da presença de navios de guerra alemães na costa brasileira, fato sabido e comprovado quando afundaram navios brasileiros, levando o Brasil a entrar na guerra, em 1942. Mas sobre a presença do nazismo dentro da colônia alemã de São Paulo. Um dos textos mais recentes aparece no artigo escrito pela doutora em história Priscilla Ferreira Perazzo, autora de livros sobre o assunto, no livro São Paulo Metrópole das Utopias, organizado pela historiadora e Livre Docente da USP, Maria Luiza Tucci Carneiro, em que vários historiadores vasculharam os arquivos do Deops sob os mais variados enfoques.


Cópia da ficha do escritor Monteiro Lobato: fichado no Deops/SP

Priscila conta como os alemães se transformaram de “imigrantes desejáveis” do fim do século 19 até o Estado Novo, porque seriam agentes “civilizadores dos costumes e branqueadores da raça” ( tudo amparado em textos encontrados nestes arquivos), a “imigrantes indesejáveis” porque faziam questão de manter a identidade alemã, enquanto a ditadura Vargas queria uma “nacionalização” dos imigrantes. No texto, a autora cita nominalmente as entidades ligadas à colônia alemã que conviviam naturalmente com representantes oficiais do nazismo alemão no Brasil, que teve a simpatia não só dos alemães radicados aqui,  mas de muitos brasileiros

Aconteceu o mesmo com a colônia italiana. Meu pai lembra de ter desfilado na Avenida Paulista, vestido de barilla (uniforme da juventude fascista) como aluno do Dante Alighieri, nos anos 30. Alemães, italianos e japoneses tiveram de deixar de lado todos estes costumes e simpatias quando o Brasil entrou na guerra, em 1942. Não se podia falar nenhuma das três línguas em lugares públicos. Minha avó contava que foi fazer compras no elegante Mappin Store, na companhia de uma amiga, e que falavam o dialeto lombardo. Alguém fardado perguntou que língua falavam, e minha avó respondeu: “Francês!”.

Agora que a História deste período está à disposição dos estudiosos, conheceremos cada vez mais sobre este período. E o que era apenas “cinema” na cabeça de crianças, vai virando verdade nas páginas de historiadores.

Texto publicado no jornal Metro de 9 de fevereiro de 2010.


O livro mostra como os alemães passaram de imigrantes desejáveis a indesejáveis, com a ascensão do nazismo



COMENTE ESSA MATÉRIA




 

1 COMENTÁRIO

Estanislau Alves Corrêa

Olá! Sou universitário e faço História, o temo do meu TCC será sbre O Nazismo no Brasil, li sua matéria e gostaria de sua ajuda com dicas de como deverei apresentar meu TCC. Peço encarecidamente que me mande algumas referências teóricas e livros que poderei usar. Sem mais para o momento, Estanislau Alves Corrêa

  • Sintonia semanal

    Sintonia semanal

    De 7 a 13 de março: "Temos que aceitar o fato de que às vezes, mesmo com a melhor das intenções, estamos errados"

    Leia mais
  • A Hora do Planeta

    A Hora do Planeta

    Ação global anual da WWF quer deixar o mundo às escuras, na noite de 27 de março. Mas será por uma boa causa...

    Leia mais

Onne a day - Newsletter

Receba dicas exclusivas

Decoração

400004f6a5bb7add0d40549f4b50afb1

Conheça os quartos que são verdadeiras obras de arte

Veja "Hotel conceito" e mais!

Gourmet

8a4837745fb5354e8512f017b83a6ef3

Marca de cachaça une ingredientes tipicamente brasileiros em nova bebida

Veja "Ypióca Guaraná" e mais!