Cultura

Dois segundos além do possível

por Gabriel Rocha Gaspar


Musa maior de Ingmar Bergman, atriz e cineasta Liv Ullmann recebe mostra exclusiva em São Paulo



Na coletiva de imprensa, ninguém queria perguntar a Liv Ullmann sobre Ingmar Bergman. A atriz/diretora/escritora teve sua trajetória estreitamente ligada à do gênio sueco com quem, além de ter feito alguns dos mais importantes filmes do Século XX – “Persona” (1966), “A Paixão de Anna” (1969) e “Cenas de Um Casamento”(1973), entre outros –, teve uma filha. Jornalistas hesitavam porque se supõe que Liv deve estar mais do que cansada de responder sobre seu ex-companheiro, amigo e ídolo. E, principalmente, porque ela vem ao Brasil para falar dela própria. 

Liv Ullmann no auditório da Cinemateca (Foto: Rodrigo Schmidt)

É que Liv é homenageada na Cinemateca com a mostra “Liv Ullmann – A Atriz, A Diretora e Seus Filmes” e com a primeira versão em português de seu livro autobiográfico “Mutações”, de 1975. Sorte deste repórter do ONNE que, sendo o primeiro a citar o diretor, foi o único a suscitar olhos marejados, acompanhados de um sorriso encantador. “Há dois anos (pouco antes da morte de Bergman, em junho de 2007), conversamos ao telefone e eu disse: ‘é tão incrível. Todo mundo com quem eu falo me diz tantas coisas lindas, só porque eu trabalhei com você,” ela contou. A belíssima resposta: “A gente compartilha o mérito. Você é o meu Stradivarius (violino mais precioso do mundo)”.

Essa foi uma entre muitas falas apaixonadas. Na verdade, suas primeiras palavras já foram uma declaração de amor (às avessas, há de se dizer). O cônsul geral da Noruega, Jens Olesen, abriu a conversa apresentando o programa da mostra, que inclui coquetéis com bebidas e comidas típicas daquele país – leia-se akvavit e bacalhau. “Nós adoramos”, ele disse, “que os brasileiros adoram e que Liv Ullmann adora”. Ela tratou de dizer, rapidamente: “Eu não gosto!”. Rendeu gargalhadas e a simpatia dos entrevistadores.

"Nem lembro de ter usado esse chapéu!" (Foto: Rodrigo Schmidt)

Seguiu-se a essa, nova paixão. Dessa vez, pela... Velhice?! Dos dois lados de Liv, cartazes mostravam uma foto sua, “datada de 38 anos atrás”, segundo ela própria. “Não gostei porque essa menina não sou eu; nem me lembro de algum dia ter usado esse chapéu!”. Aos 69 anos, essa menina se diz orgulhosa da idade. “Hoje em dia, parece que é vergonhoso ficar velho. A experiência nos permite encontrar novos caminhos para onde seguir”. 

Com toda essa disposição intelectual, não é de se admirar que Liv critique um certo cinema atual, que induz o espectador à preguiça. “Para mim, algumas das melhores experiências da vida aconteceram dentro de uma sala escura de cinema”. Quando criança, na Noruega, ela vivia em um ambiente muito protegido, cercada de família, amigos e vizinhos próximos. “Umberto D”, “Ladrões de Bicicleta” e “Milagre em Milão”, filmes do italiano Vittorio de Sica, foram a chave de um vasto universo além-muros.

Foram os primeiros passos de uma carreira que moldou o cinema no Século XX. Com meros 17 anos, Liv Ullmann estreou nas telas na comédia “Fjols til Fjells” (Tolos na Montanha, em tradução livre), de Edith Carlmar. Dois anos depois, em 1959, protagonizou “Ung Flukt” (A Garota volúvel – também de Carlmar). Antes dos 20, era uma celebridade local. “Ser famosa em um pequeno lugar é o mesmo que ser famosa no mundo inteiro. Significa ser duas pessoas: alguém que todos conhecem e alguém que é normal, que ninguém conhece. Essa segunda pessoa foi quem escreveu livros”.


Em "A Paixão de Anna", de Ingmar Bergman
Por isso, Liv se diverte com o fato de ter se tornado um ícone da libertação da mulher com “Mutações”. Diz que nem sabia que era feminista. Na verdade, ela vê todos como iguais e até tira sarro da alcunha. Conta que, quando fez Casa das Bonecas na Broadway (1975), chegou a encarar uma face furiosa do feminismo nova-iorquino. Na peça, Liv vivia Nora, uma mulher que larga o marido em nome da liberdade. “Quando eu subi no palco, na pré-estréia, as mulheres vibraram. Quando o pobre coitado que fazia meu marido (Sam Waterston) abria a boca, choviam vaias”. Waterston começou a ficar nervoso antes da apresentação e Liv recomendou ioga ao companheiro. Resultado: ele torceu o pé e teve de usar uma bengala na estréia. Acabou dando certo. O público ficou com pena dele e as comemorações pelo pé-na-bunda diminuíram. “Durante o resto da temporada, meu marido usou muletas.”
Liv ouve perguntas dos jornalistas (Foto: Rodrigo Schmidt)

Ingmar Bergman
 
“Ele se sentava ao lado da câmera, escutava e olhava tudo. Era como um amante de fato, alguém que presta atenção a cada mínimo detalhe do que você faz. Para o apaixonado, você faz o seu melhor: você sorri melhor, chora melhor, você é mais para sua interpretação”, conta Liv. Quando foi filmar Sarabanda (2003), Bergman estava longe dos sets havia quinze anos. Novos métodos de filmagem, “aos quais Ingmar não estava acostumado nem se acostumaria” impediam que ele ficasse colado à câmera como sempre fez. “Perdi aquele espectador privilegiado, fiquei perdida.” Quando ele disse ação, o que aconteceu? “Tudo foi muito bem. Nos comunicamos por sinal de fumaça.”

Não foi à toa que naquela conversa, uma das últimas, Bergman disse que Liv Ullmann era seu Stradivarius. Dessa relação entre o maestro e sua maior solista nascia a arte. Nas palavras dela própria, o grande artista é alguém que puxa um pouquinho o limite da verdade. “É como aquela bailarina que salta e consegue ficar dois segundos além do possível no ar”. 


SERVIÇO

  • Classificação indicativa: 16 anos
     
    CINEMATECA BRASILEIRA
    Largo Senador Raul Cardoso, 207
    próxima ao Metrô Vila Mariana
    Outras informações: (11) 3512-6111 (ramal 215)
    Ingressos: R$ 8,00 (inteira) / R$ 4,00 (meia-entrada)
    Atenção: estudantes do Ensino Fundamental e Médio de escolas públicas têm direito à entrada gratuita mediante a apresentação da carteirinha.
     
    PROGRAMAÇÃO
     
    08.10 | QUARTA
     
    SALA CINEMATECA BNDES
     
    20h00
    LIV ULLMANN: CENAS DE UMA VIDA (sessão para convidados)
     
     09.10 | QUINTA
     
    SALA CINEMATECA BNDES
     
    10h00
    WORKSHOP COM LIV ULLMANN
     
    14h30
    PERSONA
     
    17h00
    LIV ULLMANN: CENAS DE UMA VIDA
     
    19h00
    GRITOS E SUSSURROS
     
    21h00
    ARNE SKOUEN – FILMMAKER | ANN-MAGRITT
     
    10.10 | SEXTA
     
    SALA CINEMATECA BNDES
     
    14h30
    SOFIE
     
    17h00
    KRISTIN – AMOR E PERDIÇÃO
     
    20h30
    INFIEL
     
    11.10 | SÁBADO
     
    SALA CINEMATECA BNDES
     
    14h30
    LIV ULLMANN: CENAS DE UMA VIDA
     
    16h00
    ARNE SKOUEN – FILMMAKER | ANN-MAGRITT
     
    18h00
    PERSONA
     
    19h45
    CONVERSAÇÕES PRIVADAS
     
    12.10 | DOMINGO
     
    SALA CINEMATECA BNDES
     
    14h30
    CENAS DE UM CASAMENTO – EPISÓDIOS 1-3
     
    17h30
    CENAS DE UM CASAMENTO – EPISÓDIOS 4-6
     
    20h30
    SOFIE
     
    14.10 | TERÇA
     
    SALA CINEMATECA BNDES
     
    21h30
    GRITOS E SUSSURROS
     
    15.10 | QUARTA
     
    SALA CINEMATECA PETROBRAS
     
    17h00
    CONVERSAÇÕES PRIVADAS
     
    20h30
    CENAS DE UM CASAMENTO – EPISÓDIOS 1-3
     
    SALA CINEMATECA BNDES
     
    20h00
    KRISTIN – AMOR E PERDIÇÃO
     
    16.10 | QUINTA
     
    SALA CINEMATECA PETROBRAS
     
    17h30
    INFIEL
     
    20h30
    CENAS DE UM CASAMENTO – EPISÓDIOS 4-6
     
    FICHAS TÉCNICAS E SINOPSES
     
    An-Magritt (An-Magritt), de Arne Skouen
    Noruega, 1969, 35mm, cor, 100’ | Legendas em português
    Liv Ullmann, Per Oscarsson, Wolf von Gersum, Claes Gill
    Criada pelo seu avô após o suicídio de sua mãe, An-Magritt cresce num pequeno vilarejo montanhês na sociedade machista da Noruega do século XVII, enfrentando as adversidades da natureza e a dura vida no campo. Até que chega ao vilarejo um homem misterioso por quem ela se apaixona.
     
    Arne Skouen – filmmaker, de René Bjerke
    Noruega, 2003, 35mm, cor/pb, 8’ | Legendas em português
    Versão reduzida e re-editada de um documentário realizado por René Bjerke em 1975 sobre Arne Skouen, um dos maiores cineastas noruegueses. Diretor de obras marcantes da cinematografia daquele país, Skouen foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1958 por Nine Lives. O documentário é uma breve introdução a sua obra, incluindo trechos de diversos de seus filmes, inclusive de An-Magritt.
     
    Cenas de um casamento (Scener ur ett äktenskap), de Ingmar Bergman
    Suécia, 1973, 35mm, cor, 300’ | Legendas em português
    Liv Ullmann, Erland Josephson, Bibi Andersson, Jan Malmsjö
    O casamento de Marianne e Johan parece perfeito. Quando, por causa de outra mulher, Johan abandona Marianne, eles começam a viver um inferno conjugal, revelando os seus verdadeiros sentimentos. Originalmente uma minissérie para TV em 6 capítulos, o filme será exibido em duas sessões de 150 minutos, contendo três episódios cada.
     
    Conversações privadas (Enskilda samtal), de Liv Ullmann
    Suécia, 1996, 35mm, cor, 200’ | Legendas em português
    Pernilla August, Max von Sydow, Samuel Fröler, Anita Björk
    Escrito por Ingmar Bergman, o filme acompanha a crise existencial de uma mulher madura, mãe de três filhos, que inicia um relacionamento com um homem mais jovem e passa a questionar as escolhas que fez em sua vida. Apresentado como uma minissérie na televisão sueca, o filme foi exibido em versão reduzida no Festival de Cannes de 1997. Aqui, é apresentado em sua versão integral, com três horas e vinte minutos.
     
    Gritos e sussurros (Viskningar och rop), de Ingmar Bergman
    Suécia, 1972, 35mm, cor, 91’ | Legendas em português
    Liv Ullmann, Harriet Andersson, Kari Sylwan, Ingrid Thulin
    Na casa de campo de sua família, uma mulher à beira da morte recebe os cuidados de suas duas irmãs e de uma dedicada governanta. A partir desse reencontro, as lembranças e frustrações destas quatro mulheres virão à tona. Vencedor do Oscar Melhor Fotografia,foi indicado também noutras quatro categorias, incluindo Melhor Filme e Direção.
     
    Infiel (Trolösa), de Liv Ullmann
    Suécia/Noruega/Itália/Alemanha, 2000, 35mm, cor, 152’ | Legendas em português
    Lena Endre, Erland Josephson, Krister Henriksson, Thomas Hanzon
    O casamento feliz de Marianne e Markus, um famoso maestro, é abalado quando ela inicia um tórrido caso extraconugal com o melhor amigo de seu marido. Roteiro de Ingmar Bergman.
     
    Kristin – Amor e perdição (Kristin Lavransdatter), de Liv Ullmann
    Noruega/Suécia/Alemanha Ocidental, 1995, 35mm, cor, 180’ | Legendas em português
    Elisabeth Matheson, Bjørn Skagestad, Sverre Anker Ousdal, Henny Moan
    Ambientado na Noruega do século XIV, o filme acompanha as desventuras de Kristin, filha de um poderoso latifundiário, que está prometida para outro senhor feudal. Após sofrer um trauma, Kristin refugia-se num convento e, enquanto espera pela concretização de seu casamento arranjado, apaixona-se por um cavaleiro e decide desafiar as convenções de sua época. Adaptação do primeiro livro da trilogia escrita por Sigrid Underset, premiado com o Nobel de Literatura em 1928
     
    Liv Ullmann – Cenas de uma vida (Liv Ullmann – Scener fra et Liv), de Edvard Hambro
    Noruega, 1997, 35mm, cor/pb, 77’ | Legendas em português
    Documentário sobre o trabalho de Liv Ullmann como atriz, diretora e ativista de causas humanitárias, incluindo cenas de bastidores de filmes dirigidos ou estrelados por ela. Narração de Woody Allen.
     
    Persona – Quando duas mulheres pecam (Persona), de Ingmar Bergman
    EUA, 1966, 35mm, pb, 85’ | Legendas em português
    Liv Ullmann, Bibi Andersson, Margaretha Krook, Gunnar Björnstrand
    Uma atriz teatral de sucesso sofre uma crise emocional e emudece. Para se recuperar, parte para uma casa de campo, sob os cuidados de uma enfermeira que a admira e tenta compreender a razão de seu silêncio. Isoladas, as duas mulheres desenvolvem uma relação de forte intensidade emocional. 
     
    Sofie, de Liv Ullmann
    Dinamarca/Noruega/Suécia, 1992, 35mm, cor, 146’ | Legendas em português | Exibição em Beta Digital
    Karen-Lise Mynster, Ghita Nørby, Erland Josephson, Jesper Christensen
    Na Dinamarca do final do século XIX, uma moça judia se apaixona por um pintor cristão. Porém, pressionada pela família, acaba aceitando casar-se com um comerciante de origem judaica, muito mais velho que ela. Contando com uma primorosa reconstituição de época, o filme marca a estréia de Liv Ullmann como diretora.




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10 COMENTÁRIOS

Bruna Therolly

Sem dúvida,Liv,faz uma presença feminina muito importante no Cinema,merecendo enfim ser homenageada de tal forma.

ÁUREA REGINA

Certa vez eu escrevi:-"Sou todos os instrumentos de uma orquestra, e vc o maestro da mais bela sinfônia de Amor!" Uma pequena relação com o que Bergman lhe disse! Maravilha!!!

Eliana Clarice Ferreira

O chapéu em questão deve figurino do filme Quarenta Quilates. Pena que os filmes feitos em Hollywood e a comédia italiana que Liv atuou com Guiliano Gema não foram mencionados.

Ana Regina

Ela está divinamente bela como sempre foi!!! Parabéns pela matéria!! Que comentário belíssimo (e apaixonado!!) feito pelo diretor sueco Ingmar Bergman, comparando-a com um Stradivarius!! Ele que é um dos mestres do cinema do século XX e sua musa maior!!

Webber Lopes

Mais do que justa a homenagem a Liv Ullmann. Além de excelente artriz, sempre se envolveu em causas humanitárias. Nunca ficou encastelada em sua fama. Foi e continua sendo uma das atrizes mais lindas da história do cinema mundial; isto sem falar do grande talento e profissionalismo. Sem dúvida o talento de Liv ao interpretar suas personagens, colaboraram em muito para que os filmes nos quas trabalhou, sejam condiserados hoje clássicos do cinema.

Eliana Clarice Ferreira

Matei a charada ! O chapéu em questão faz parte do figurino do filme Quarenta Quilates, baseado em uma peça teatra encenada aqui por Madame Henriete Morineau. É uma comédia ligeira que tratava de um tema tabu para a época : um jovem de 22 anos bonito, rico , chic e motoqueiro que se apaixona por uma mulher divorciada de 40 anos, num verão na Grécia e luta por ela no inverno de Nova York. Gene Kelly faz o ex que dá a maior força na relação. Que bom que Liv fez um filme que passa alegria e vida amorosa.

jerry

musa dos anos 70 uma bela atriz q sempre ..............

Lais Barbosa

Gostei desse evento porque informa ao público os encantos do cinema. Liv Ullmann é atriz internacional, bonita e tem historia para contar. Eu gosto muito de cinema e penso ver os filmes que atuou.Parabenizo mais uma vez essa iniciativa.

Augusto Aurélio Pereira

Maravilhoso um ícone do cinema !!!! Uma diva !!!!

rodrigo

Adorei a materia , sem duvida Liv é uma musa .

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